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ISSN (Impresso) 1679-4435 - ISSN Online 2447-0147
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WOMEN, WORK AND HEALTH

MULHER, TRABALHO E SAÚDE

Rosane Härter Griep

DOI: 10.5327/Z16794435201917S1009

A crescente participação feminina na força de trabalho gera maior demanda de equilíbrio entre homens e mulheres quanto às responsabilidades em casa e no trabalho. No entanto, a participação masculina nas demandas familiares não tem crescido na mesma medida, gerando sobrecarga entre as mulheres, que ainda são as maiores responsáveis pelo cuidado de familiares e nas atividades domésticas. Além disso, a intensificação do trabalho e a permeabilidade entre a o trabalho e vida pessoal, propiciado pelo uso das tecnologias da informação, também se constituem em fenômenos atuais e tornam o equilíbrio entre a esfera pessoal e do trabalho cada vez mais desafiador.

Nesse contexto emerge o Conflito trabalho-família (CTF), definido como a "forma de conflito entre papéis no qual as pressões/demandas dos domínios do trabalho e da família são mutuamente incompatíveis em algum aspecto". Trata-se de um constructo bidirecional e gera estresse na medida em que os esforços para atender às demandas do trabalho interferem na capacidade de responder às demandas da família, ou vice-versa. O conflito do trabalho para a família ocorre quando o excesso de demandas provenientes do trabalho (por exemplo, horários extensos ou irregulares, sobrecarga, conflitos interpessoais, viagens e ausência de apoio social por parte de colegas de trabalho ou supervisores) interfere na vida familiar. Por outro lado, o conflito da família para o trabalho ocorre quando demandas familiares (por exemplo, cuidado de crianças ou idosos, conflitos interpessoais na família, ausência de apoio familiar) afetam a vida profissional. Há uma variedade de mecanismos que relacionam esses dois domínios, resultando em efeitos positivos, em que sentimentos de realização, satisfação e reconhecimento obtidos em um domínio (família ou trabalho) são transferidos para o outro; de equilíbrio ou segmentação, quando os resultados obtidos em um domínio não influenciam o outro; ou negativos, relacionados ao conflito, em que o êxito em um domínio envolve sacrifícios no outro.

Esses efeitos negativos e sua possível influência à saúde, considerando especialmente a influência do gênero e de condições socioeconômicas, têm sido objeto de estudo da literatura internacional de maneira crescente. Diversos estudos demonstraram a associação entre os efeitos negativos do conflito trabalho-família e diversos desfechos de saúde física e mental, tais como: sintomas comuns, saúde mental, depressão ou exaustão emocional, pior percepção de saúde, saúde cardiovascular ou comportamentos de saúde. Outros estudos apontaram ainda que a presença do conflito pode reduzir os benefícios de bem-estar do emprego. A maioria desses estudos apontou diferenças de gênero nessa associação, sendo que os resultados mostram maior prevalência do conflito, além de seus efeitos na saúde física e mental sobretudo entre as mulheres.

Portanto, a associação entre o conflito entre trabalho e família e seus efeitos na saúde tem sido bem estudada, principalmente na Europa Ocidental e na América do Norte. No Brasil, o país mais populoso da América do Sul, onde a desigualdade de renda e de gênero permanecem altas, os estudos sobre a influência do conflito trabalho-família na saúde ainda são escassos.

Diversos instrumentos foram elaborados para mensurar o conflito entre o trabalho e a família. A adaptação de um desses instrumento para o Português brasileiro e sua inclusão na linha de base do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil) permitiu estudar os efeitos desse desequilíbrio no contexto brasileiro. O ELSA-Brasil é um estudo de coorte multicêntrico em seis capitais brasileiras, que acompanha a saúde de 15.105 servidores ativos e aposentados, com o objetivo central de estudar a incidência e os determinantes das doenças crônicas não-transmissíveis. Essa apresentação sintetiza os resultados dos estudos realizados no âmbito do ELSA até o momento, em desfechos como o risco cardiovascular, enxaqueca, saúde autorreferida e obesidade.

Os resultados serão discutidos em relação à melhoria das políticas públicas e no local de trabalho para melhorar a saúde dos adultos que trabalham, promovendo o gerenciamento do conflito entre trabalho e família. A oportunidade de desenvolvimento pessoal para ambos os sexos e o enriquecimento da vida familiar cotidiana serão garantidos por uma maior igualdade de gênero ao cuidar dos deveres domésticos e dos filhos. Estratégias que minimizem o conflito trabalho-familia podem diminuir os níveis de estresse e influenciar positivamente as prioridades para mulheres e homens no uso do tempo para si próprios, melhorando a saúde e o bem-estar. Isso é especialmente importante em países como o Brasil, onde grandes desigualdades de gênero interagem com outras desigualdades sociais e econômicas. Lidar com o equilibrio entre as demandas do trabalho e da família na vida moderna, especialmente nas grandes cidades, é um grande desafio e, mais do que providências individuais (ou familiares), são necessárias políticas de nível macro e politicas organizacionais para promover mudanças nos padrões tradicionais de comportamento e promover a igualdade de gênero e a justiça social.

 

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